sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Ofício

Deram-me, novamente, desares de quem põe defeito em tudo. Ando, por aí, de prumo e esquadro na mão, vendo o torto e o desalinhado e passando a plaina para desbastar as rebarbas. Não é só com a política e com a economia que tenho arreliado: a língua me causa transtorno e labor.

Mas, para consertar o mundo, é preciso filosofia: afinal de contas, mister, primeiro, compreendê-lo. E, aí, é que me corroem dúvida e angústia. Vou à prateleira, onde meus livros estão guardados, à busca de sistema. Procuro um que não seja complicado ou hermético demais que não se possa penetrá-lo. Não que não seja afeito a desafios e à hermenêutica: é que o ponteiro apressado do relógio é outro troço que carece de reparo, anda lépido em excesso; e se gasto tempo demasiado perscrutando elucubrações cabeludas, acabo consumindo o fio de tempo que me resta neste mundo sofrido e desarrumado, e as coisas ficam por aí, como são, sem martelo e bigorna que as desentortem.

Também não se pode negar que de filósofo e de louco todo mundo tem um pouco. E o pouco de siso que centelha no cérebro me faz cogitar que, se quero consertar o errado, é porque certo um dia já foi. Foi mesmo? Lá vem a desditosa dúvida cartesiana; resisto: não quero pôr tudo na britadeira. Todavia, a certeza de que já houvera o certo desapega. Talvez o homem já tenha nascido pendido para o lado da marotagem, pois, se fora criado pelo Sumo Bem, como pôde degringolar? 

Por aí vejo que não terá fim. Não o homem, a crônica. Se entrarmos por essa conversa de padre com filósofo, pode inventar cachaça: o colóquio será longo. Como disse, o ponteiro do relógio anda a correr às pampas, e já cruzei a metade do caminho. Mas não posso sair da zoeira sem pôr a colher de pedreiro na massa, melhor dizendo, sem riscar a caneta vermelha do lente no erro alheio. Lá vai.

Encuca-me a tal da garrafa PET. Bom invento, uns vão dizer; que há de errado? Outros, de viés mais revoltoso, vão nos lembrar da desconstrução do mundo que fazemos todos os dias com nossa presença de macaco desajuizado. Cá não quero discutir tais coisas, como disse: o ponteiro está a mil. Basta-me contentar com um risco vermelho na desfiguração gramatical do malfadado nome da embalagem. Pouco me importa, neste momento, a santificação ou demonização da coisa em si; se bem que, por mim, que não prezo amor às coisas ruins, atirava tudo ao lixo; melhor, à oficina: quero pôr reparo no mundo ou não?

Por que “garrafa PET”? Ninguém diz “garrafa plástico”, “garrafa vidro”. Então seria “garrafa de pet”? É o que me compete reparar, se por outrem não for eu reparado. É que, às vezes, vai-se ao curral tosquiar ovelhas e se volta sem um fio de pelo no couro. Arre-égua! Tenho medo disso. Mas lá se vai à explicação: sem muita demora que o povo não se encanta com isso não; a desatenção bate logo.

Alguém, por aí, nesse mundo, mais de “Meu Deus!” do que de meu Deus, inventou a tal garrafa feita de polietileno tereftalato. A preguiça, que é bicho que não entrou na lista de extinção e abunda o mundo velho sem porteira, deu jeito de botar somente às iniciais do citado nome: pet. Logo, se o mais aconselhado pelos napoleões e macambiras da vida fora é falar e escrever garrafa de polietileno tereftalato, grafe-se e verbalize-se “garrafa de pet”. Doido eu? Ponho é tino (de pet). Vou: zás! - que o negócio começou a entortar e podem querer me desamassar.


Elio Cunha

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