sábado, 9 de setembro de 2017

Às pressas, porque embora seja tempo de tempo perdido é tempo de pouco tempo

Num canto de qualquer coisa
Coisa é e não foi
O velho ressentimento que se fez novo, novo como o caminhar aprendido às pressas
Foi, sim, não viste?
Eu, por exemplo, estou aqui, sem saber onde, porque o aqui pode ser em qualquer lugar
E nunca há a certeza do que vem depois
Nem do que já foi
Pois estamos largados neste mundo há tempos
Sem saber de nosso cordão umbilical
Por que fomos paridos
Por quem
E somos nós para quê
Nem sempre essas perguntas interessam: muito velhas desbastadas gastas
Envelhecidas como o velho mundo
Mas os filósofos e poetas, que são pessoas que não se contentam com o que são,
Aqui e acolá querem saber o que é o aqui e o acolá
Eu, por exemplo,
Eu por exemplo peço a não repetição das coisas porque as coisas precisam inovar nascer de novo mesmo que continuem o seu caminho repetido e sejam as mesmas de todos os dias, amém.

Elio Cunha

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

De males e bem

Há males que vêm para bem. Verdade que tem sido animada por copiosos exemplos produzidos, em séculos, pelo Homo Sapiens. Desde a dicção desse adágio pelo vivente que pela primeira vez o proferiu, em algum lugar deste nosso imenso mundo, o ditado tem mostrado sua valia. Quando os ventos errôneos sopraram as caravelas de Pedro Álvares Cabral e o fizeram desviar-se dos caminhos para as Índias, houve a recompensa da descoberta destas novas paragens na qual, primeiro, avistou-se o Monte Pascoal, em seguida, a terra chã, que se chamou Terra de Vera Cruz; depois, Ilha de Vera Cruz; Brasil, finalmente. Males que vêm para bem. Acreditem. Até mesmo Robespierre, na iminência de ver a lâmina decepar-lhe, cerce, o pescoço, pôde perceber a força desse dito popular. O padre, que dava o perdão eterno, antes de o verdugo puxar a corda do badalo da hora extrema, asseverou ao moribundo: “Hoje mesmo estarás com Cristo no Paraíso” (Aujourd'hui, vous serez avec le Christ au Paradis). Males que vem para bem. Embora o guilhotinando tivesse ceifado umas centenas de almas e se visse, naquela hora, prestes a perder a cabeça, brotou-lhe no coração, iluminista, uma certeza de vida folgada, sonhou com anjos e até viu-se a si mesmo a tocar trombeta em honra ao Todo-Poderoso.
Nosso personagem, é claro, não é personalidade ilustre na história da humanidade, mas, nem por isso, não seja merecedor das benesses do destino. Homem simples, morador de um bairro pobre da capital. Os calos da mão denunciam uma vida de labor e pouco gozo. Trabalhava numa empresa de construção e terraplanagem. Sol a sol, durante três anos, foi o último emprego.  Dois salários mínimos para a sustança de filhos e mulher, para o pagamento de aluguel, luz e outros provimentos; e lá se ia o suado dinheiro. Foi despedido por conta do encerramento da obra e da crise sem perspectiva, que estava longe de findar-se.
No dia marcado para receber o estipêndio rescisório, compareceu à empresa e pegou tudo em notas verdinhas: uma dinheirama que não possuía há tempos e que dava até para comprar um terreno nos arrabaldes da cidade, para construir a tão sonhada casa para a família, ah dava! Montante que se avolumou ainda mais com o saque do FGTS que fizera, no mesmo dia, no banco oficial. Enfiou tudo na guaiaca e pegou o rumo de casa.
No caminho para o lar, não conseguia disfarçar a tristeza, por mais que soubesse que o dinheiro na bolsa era um bom bocado. Sabia que ia ficar desempregado por algum tempo, teria de sobreviver de bico, quando achasse algum para fazer. A fila do Sine era longa; tinha amigos que estavam sem trabalho há meses, anos, vivendo pela graça de Deus.
Deu-lhe vontade e precisão de tomar uma cerveja. Parou num boteco qualquer. Sentou-se, sozinho, a uma mesa, mas logo apareceram alguns colegas, conhecidos de anos de faina na construção civil. Pagou bebidas e jogou sinuca; veio a noite, e o que era para descontrair e desopilar virou farra. Não demorou, alguém lançou a ideia de uma idazinha à casa de luz vermelha. Lá se foram o endinheirado e o séquito de amigos. A esbórnia no lupanar foi de fazer inveja à pessoa de posse: não houve mulher da vida que não tomara sua dose de uísque e não fizera a sua dança voluptuosa na mesa do bom homem e dos amigos.
Fim de noite é sempre uma tristeza: a melancolia chega pouco a pouco com o sol nascente e espanta os boêmios. O prostíbulo vai se esvaziando, ao mesmo tempo em que as cadeiras são postas sobre as mesas; as meninas vão desaparecendo, e a freguesia se apequena, até ficarem um e outro serviçal a cuidar da varrição e das últimas arrumações.
 O nosso personagem, que passara a noite na festança, cansado, caminha para casa, a passos lentos e trôpegos,  cambaleante; vai num ritmo de homem amanhecido e de cara bebida; a cabeça é inchaço: dor e arrependimento. Todo o dinheiro se fora. Agora, como chegar em casa? Encarar os filhos, a esposa braba? Como encarar a vida, que dura era e mais dura ficou ainda, sem nenhum vintém? Quanto mais andava, mais a realidade se tornava viva, cruel, atormentada. Que faria?
Mesmo andando devagar, à casa chegou, porque devagar se vai ao longe. Abriu o portão de madeira, entrou no quintal. A porta da casa já estava aberta, e a mulher, em pé, esperava com cara de poucos amigos. Como explicar tudo à mulher? Melhor ficar calado, deixá-la falar sozinha, dormir um pouco, depois inventava uma história, ou contava a verdade; que poderia fazer? Passou pela porta, a mulher, chorosa, empurrou-o e pôs as mãos no próprio rosto, tapando os olhos, aos prantos. Deu pena da pobre mulher de carnes sofridas e cabelos despenteados; tinha passado a noite em claro, ruminando dores, enquanto ele se esbaldava nos braços das moças de vida fácil. Tirou a guaiaca da cintura e pô-la sobre a cama: sabia-a vazia, sem um níquel sequer, nem para o pão matinal. Atirou-se ao leito de papo para o ar.
Um turbilhão de lembranças, embaralhadas e picotadas pelo esquecimento, assomou à cabeça inchada e doída; músicas recorrentes, que não se calavam, nas vozes dos cantores que embalaram a noite desregrada, cheiro de fumaça, de bebida, risadas, gestos, safadezas; lembrou-se da mulher com quem se deitara num quartinho de fundo da baiuca. Branca, batom vermelho, maquiagem exagerada. Pagara um bom dinheiro por aquela carne desconhecida, bastante usada, deveras, mas ainda com o frescor da juventude e a boa sem-vergonhice das meretrizes. De repente, a lembrança de um pequeno acontecimento que já parecia haver sido apagado, deletado dos neurônios judiados pelo álcool da noite de patuscada. Um bilhete de loteria.
Um bilhete de loteria que comprou da mulher mundana com quem se deitara. Era manhã de quinta-feira e, na noite da quarta-feira, noite da lascívia, ocorrera o sorteio de um prêmio acumulado. A mulher ofereceu-lhe o bilhete, tarde da noite, é claro, mas sob a promessa de que não havia conferido o resultado e que aquele podia ser o bilhete premiado; por isso, queria receber mais caro por ele, mais do que pagara pela simples aposta. Comprou o bilhete. A danada era muito carinhosa, um mimo, um desperdício de mulher, e, além disso, a bebida sempre cria outros fios e inspirações para o raciocínio e dá poder de mando. Pagou pela aposta feita: dinheiro bom.
Por que não? Não era por ser mulher com o destino da lua que não podia ser honesta. Conhecia gente na vida que tirara mulher do bordel para esposa, vindo a ser muito honrada, sem nunca ter dado dissabor ao marido. O prêmio estava acumulado: milhões. Podia ser, sim, verdade que o bilhete não tinha sido visto! Lá poderiam estar os números sorteados! Afinal, certos males vêm para bem. Acreditem.
Apanhou a pochete mais que depressa, abriu-a e lá estava o bilhetezinho, dobrado, amassado, porém inteirinho: seis números bem visíveis e intactos. Pegou o celular. Havia ainda crédito para acessar a internet? Ora essa, só faltava isso, não ter mais crédito. Mas tinha, e uma alegria escorregou-lhe pela alma, até brotar nos lábios, num sorriso amplo. Ligou os dados móveis, entrou no sítio das loterias, viu que poderia dar uma vida melhor aos filhos, comprar uma casa, um carro, enfeitar a sua mulher, dar-lhe presentes; os seis números sorteados logo apareceram, verdinhos como o verde das notas com que sonhava. Conferiu-os alvoroçado... todos, todos estavam errados: não acertou um sequer. Que desgraçada! Sem-vergonha!
E os males do pobre homem continuariam, com toda a dureza da vida, porque muitos males só vem para males e nada mais que males serão.

Elio Oliveira Cunha

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Ofício

Deram-me, novamente, desares de quem põe defeito em tudo. Ando, por aí, de prumo e esquadro na mão, vendo o torto e o desalinhado e passando a plaina para desbastar as rebarbas. Não é só com a política e com a economia que tenho arreliado: a língua me causa transtorno e labor.

Mas, para consertar o mundo, é preciso filosofia: afinal de contas, mister, primeiro, compreendê-lo. E, aí, é que me corroem dúvida e angústia. Vou à prateleira, onde meus livros estão guardados, à busca de sistema. Procuro um que não seja complicado ou hermético demais que não se possa penetrá-lo. Não que não seja afeito a desafios e à hermenêutica: é que o ponteiro apressado do relógio é outro troço que carece de reparo, anda lépido em excesso; e se gasto tempo demasiado perscrutando elucubrações cabeludas, acabo consumindo o fio de tempo que me resta neste mundo sofrido e desarrumado, e as coisas ficam por aí, como são, sem martelo e bigorna que as desentortem.

Também não se pode negar que de filósofo e de louco todo mundo tem um pouco. E o pouco de siso que centelha no cérebro me faz cogitar que, se quero consertar o errado, é porque certo um dia já foi. Foi mesmo? Lá vem a desditosa dúvida cartesiana; resisto: não quero pôr tudo na britadeira. Todavia, a certeza de que já houvera o certo desapega. Talvez o homem já tenha nascido pendido para o lado da marotagem, pois, se fora criado pelo Sumo Bem, como pôde degringolar? 

Por aí vejo que não terá fim. Não o homem, a crônica. Se entrarmos por essa conversa de padre com filósofo, pode inventar cachaça: o colóquio será longo. Como disse, o ponteiro do relógio anda a correr às pampas, e já cruzei a metade do caminho. Mas não posso sair da zoeira sem pôr a colher de pedreiro na massa, melhor dizendo, sem riscar a caneta vermelha do lente no erro alheio. Lá vai.

Encuca-me a tal da garrafa PET. Bom invento, uns vão dizer; que há de errado? Outros, de viés mais revoltoso, vão nos lembrar da desconstrução do mundo que fazemos todos os dias com nossa presença de macaco desajuizado. Cá não quero discutir tais coisas, como disse: o ponteiro está a mil. Basta-me contentar com um risco vermelho na desfiguração gramatical do malfadado nome da embalagem. Pouco me importa, neste momento, a santificação ou demonização da coisa em si; se bem que, por mim, que não prezo amor às coisas ruins, atirava tudo ao lixo; melhor, à oficina: quero pôr reparo no mundo ou não?

Por que “garrafa PET”? Ninguém diz “garrafa plástico”, “garrafa vidro”. Então seria “garrafa de pet”? É o que me compete reparar, se por outrem não for eu reparado. É que, às vezes, vai-se ao curral tosquiar ovelhas e se volta sem um fio de pelo no couro. Arre-égua! Tenho medo disso. Mas lá se vai à explicação: sem muita demora que o povo não se encanta com isso não; a desatenção bate logo.

Alguém, por aí, nesse mundo, mais de “Meu Deus!” do que de meu Deus, inventou a tal garrafa feita de polietileno tereftalato. A preguiça, que é bicho que não entrou na lista de extinção e abunda o mundo velho sem porteira, deu jeito de botar somente às iniciais do citado nome: pet. Logo, se o mais aconselhado pelos napoleões e macambiras da vida fora é falar e escrever garrafa de polietileno tereftalato, grafe-se e verbalize-se “garrafa de pet”. Doido eu? Ponho é tino (de pet). Vou: zás! - que o negócio começou a entortar e podem querer me desamassar.


Elio Cunha

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Pouca chance

Um botão de camisa
E um clipe
Ao rés do chão
Frente a frente
Num confronto de coisas mudas

Elio Cunha

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Casaco de tripas

Sou o poeta-nojo!
Despojei as entranhas de uma burguesa:
Tirei-lhe as tripas,
Virei-as ao avesso
E cosi um casaco.
Ando pelas ruas, bailes, festas e reuniões
Exibindo meu exuberante casaco de tripas.
Hoje jantei com uma dama,
Depois fomos a um baile de casamento.
A noiva perguntou-me furiosa:
- Por que você veio emporcalhar meu casamento com essas tripas horríveis à mostra?
- Moça - cuidei em explicar-lhe –, trata-se de um burgueson: casaco feito com as tripas da senhora Carolina, mulher muito refinada e de origem abastada. Além disso - acrescentei –, minha missão é revelar ao mundo a profunda interioridade humana, sobretudo a sensibilidade lírica dessas almas burguesas.

Elio Cunha

Um poema à contracapa numa tarde de pouco vento

O papel espera as palavras,
Que caem numa lassidão interminável.
A tarde é frouxa e quente
E deixa os corpos sebosos,
Suados e malcheirosos.
E há, nas folhas paradas dos matos e das gramíneas,
Qualquer coisa de inefável,
Qualquer coisa de estático,
Uma mudez de túmulos,
Um silêncio de morte.
E há, nos homens que trabalham,
Uma respiração abafada,
Um suor de urina,
Uma conversa sem palavras,
Uma espera desesperançada.

Elio Cunha

Soneto do poema-desejo

Quero o poema reluzindo argênteo,
Como escamas de peixe sob o sol,
Ao salto das cachoeiras do Teotônio,
Compondo seus matizes do arrebol.

Majestoso, dance suave e elegante,
Como nos campos, a valsa dos lírios;
Ousado, com força sobrepujante,
Revele ao mundo os esconsos martírios.

Lançado aos sulcos de Ceres fecunda,
Possa brotar como ínfimas pevides
Que carregam a promessa profunda

De frutos maduros: vindoura messe.
E o poema, para que não o olvides,
Tornará procura, sagrada prece.

Elio Cunha

À época em que havia Teotônio.