sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Casaco de tripas

Sou o poeta-nojo!
Despojei as entranhas de uma burguesa:
Tirei-lhe as tripas,
Virei-as ao avesso
E cosi um casaco.
Ando pelas ruas, bailes, festas e reuniões
Exibindo meu exuberante casaco de tripas.
Hoje jantei com uma dama,
Depois fomos a um baile de casamento.
A noiva perguntou-me furiosa:
- Por que você veio emporcalhar meu casamento com essas tripas horríveis à mostra?
- Moça - cuidei em explicar-lhe –, trata-se de um burgueson: casaco feito com as tripas da senhora Carolina, mulher muito refinada e de origem abastada. Além disso - acrescentei –, minha missão é revelar ao mundo a profunda interioridade humana, sobretudo a sensibilidade lírica dessas almas burguesas.

Elio Cunha

Um poema à contracapa numa tarde de pouco vento

O papel espera as palavras,
Que caem numa lassidão interminável.
A tarde é frouxa e quente
E deixa os corpos sebosos,
Suados e malcheirosos.
E há, nas folhas paradas dos matos e das gramíneas,
Qualquer coisa de inefável,
Qualquer coisa de estático,
Uma mudez de túmulos,
Um silêncio de morte.
E há, nos homens que trabalham,
Uma respiração abafada,
Um suor de urina,
Uma conversa sem palavras,
Uma espera desesperançada.

Elio Cunha

Soneto do poema-desejo

Quero o poema reluzindo argênteo,
Como escamas de peixe sob o sol,
Ao salto das cachoeiras do Teotônio,
Compondo seus matizes do arrebol.

Majestoso, dance suave e elegante,
Como nos campos, a valsa dos lírios;
Ousado, com força sobrepujante,
Revele ao mundo os esconsos martírios.

Lançado aos sulcos de Ceres fecunda,
Possa brotar como ínfimas pevides
Que carregam a promessa profunda

De frutos maduros: vindoura messe.
E o poema, para que não o olvides,
Tornará procura, sagrada prece.

Elio Cunha

À época em que havia Teotônio.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Coisa de maluco

O caso é hilariante e cheira à mentira. Quem ouve a história, à primeira escutada, à segunda, à terceira, etc, etc, a julga causo de trovador, patranha de cordelista. Mas não é não. Nada disso. A narrativa é verdade pura, da mais lídima. E, para quem disser que é tudo exagero meu, pode conferir o enredo de perto e vai ver a chancela da Fé Pública: carimbo e assinatura de juiz. É que os fatos estão registrados em autos de processo.
Delegada aposentada. 56 anos. Peso da idade?! Que nada! – muito amor para dar. Só que os predicados de Vênus há muito tempo puxaram o carro, se é que por lá algum dia estiveram. Mas isso é problema não: tem gente corajosa, mama até em onça, ou patriota demais – aquelas coisas que dizem por aí os gozadores de plantão: “põe a Bandeira do Brasil na cabeça da sujeita e manda ver”. Resumindo: a madame era feinha que doía.
Deu queixa na polícia de fato medonho: um cabra a estuprou. Medalha para ele?! Não! Aperte o riso! Com isso não se brinca: coisa séria. Nada de humor negro. O meliante foi chamado ao inquérito. Depoimentos, testemunhas, etc. Prova do fato? Nenhuma. E o pior: a coisa se sagrou falso, invenção, tanga. A autoridade judiciária concluiu a peça investigatória e remeteu ao MP. Mais Peta?!  Não, homem de Deus! – Ministério Público. O Guardião da Lei não perdeu tempo: denunciou a pretensa vítima de estupro, a referida delegada aposentada, por denunciação caluniosa. Artigo 339 do CP.
Tomei conhecimento dos fatos na audiência. Estava lá de olheiro: exigências do curso para botar anel de doutor. Primeiro ouviu-se a vítima.  A delegada? Não, não. O dito estuprador. A delegada agora era ré. O negócio se invertera, lembra? O bandido passou a mocinho e a mocinha, a bandida. Registre-se: no processo, a delegada era advogada dela mesma. Atuava em causa própria. Mais tarde, o juiz percebeu que a bichinha, além de Afrodite ao avesso, era também uma porta. Nomeou defensor público para acompanhar e reforçar a defesa. “Pra evitar nulidades”, disse o Meritíssimo.
Pois bem, a vítima consignou seu depoimento. Negou os fatos (do estupro! da calúnia ele confirmou - não se embaralhe). Conhecia a acusada desde menino. Há algum tempo ela vinha perturbando, mandando mensagens de telefone para ele, etc. Como o rapaz negou-se patriota, domador de onça (eu, cá para mim, penso que o indivíduo já tinha mandado na velhota, em tempos pretéritos), ela tacou-lhe o 213. Conjunção carnal mediante violência. Mas com que intuito fez isso? Só para danar o rapaz? Vingança pelo desprezo? Foi nada disso: intenção outra.
No depoimento, o moço contou que, na delegacia, na fase do inquérito, a coroa aparecera com um contrato para ele assinar. 
– Que contrato era esse? – inquiriu o juiz.
O tido estuprador – agora vítima – disse que não sabia, desconversou. Acho que ficou meio acanhado de dizer. Diante do juiz, do promotor, da escrivã, dos bisbilhoteiros e da solenidade do ato, os depoentes, com freqüência, se enrubescem, põem vergonha, vexam-se. Caso dele.
Chamou-se a testemunha de acusação: uma policial, escrivã do inquérito. Diga-se, de passagem e sem nenhum proveito para nossa história: essa esposava os generosos atributos da deusa grega. O juiz fez pergunta, ela narrou o que sabia. Conversa vai, conversa vem, tudo no mais solene da Justiça, lá surgiu o tal do contrato de novo.
– Que contrato foi esse? – interrogou o juiz.
Foi aí que a coisa se esclareceu. A delegada aposentada – a pseudo-vítima – levara à delegacia um contrato para o suposto estuprador assinar. Se ele concordasse com os termos do ajuste e assinasse o pacto, ela retiraria a queixa.
– Mas o que estava escrito nesse contrato? – perguntou o juiz.
A depoente, com a pudicícia característica da alma feminina, desfechou:
 – Se ele concordasse em fazer sexo com ela duas vezes por semana, durante três meses, ela retiraria a queixa.
Olhei para o juiz. Ele estava sério. Homem sisudo. Contive o riso.  Nos lábios – por dentro, eu gargalhava a bandeiras desfraldadas.


Elio Oliveira Cunha

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

No caminho com Sócrates

Há sempre um ponto de interrogação
Pronto para ser usado
Que, se não for posto em fim de frase,
Fica por aí, caído, inválido.
E quem por ele passa,
Pode até chamá-lo de cabo de guarda- chuva,
Pode até querer pegá-lo para afugentar cães.
Costumo andar pela beira dos caminhos velhos,
Apanhando esses pontos descartados;
Costumo procurar um lugar para fixá-los.
Há tantas frases por aí, soltas,
Que facilmente se tornam perguntas;
Exemplo:
O sol nasce para todos
?
Mas essas frases, quando pontuadas,
Não podem ficar caladas,
Porque é como se não existissem,
Porque é como um sino mudo numa torre em ruínas.



Elio Cunha

sábado, 9 de março de 2013

Seu amor

Seu amor, dizia ela,
Era como dois pássaros comendo capim ao alvorecer.

A única coisa que nele fazia sentido
Era um cântaro vermelho em que colhia pequenos suspiros noturnos.

Vinha sempre solícita e meiga
E não havia como não partirmos,
Em cavalos alados e saltitantes,
Para nuvens que, plúmbeas e carregadas,
Explodiam nas patas de Pégaso
E “o quente arfar das virações marinhas”
Soprava úmido em seu corpo,
Transido de desatinos e insensatez

Ao fim, esmaecido de tanto paraíso,
Eu a via deixar o quarto sem se despedir.
Apenas um sorriso deslizante em seus lábios
E a certeza de que, contente e satisfeita,
A porta da alcova tornaria a abrir,
Mas seu coração, seu coração continuaria insano e sem juízo
E voaria por aí, por azuis e arco-íris, como pássaros ao entardecer.

Elio Oliveira Cunha

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

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Por que procuras?

Elio Cunha