quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

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Por que procuras?

Elio Cunha

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

As mulheres lindas

As mulheres lindas têm um olhar como que triste,
Pois sonham que o mundo seja igual a elas:
Um sem-número de rosas a todos os cantos,
Eternas canções de primaveras.

As mulheres lindas têm um gesto como que esquecido,
Pois desejam que os amantes sejam como as folhas em outono,
Como as notas de um violão plangente
Que somem no luar evanescente.

As mulheres lindas têm um toque como que findo,
Pois querem que os encontros sejam como o vento que está indo,
Como um halo de estrela cadente,
Como o vermelho odor dos vinhos noturnos.

As mulheres lindas têm um amor como que espinho,
Pois precisam que os enlaces sejam como que picantes,
Como veneno quase que mortal, mas efêmero
Como, ao perfurar o peito, o rútilo do gládio lancinante.

As mulheres lindas têm um suspiro como que de deusas,
Pois sentem que o êxtase é como que pedaço de céus,
Como a entrega de Vênus aos seus recônditos caprichos,
Em seus enleios que não deixam laços.

As mulheres lindas, por serem lindas, têm um adeus como o de quem nunca foi,
Pois sabem que ficam para sempre, mesmo que sejam raios na tempestade.
Como mulheres lindas, por serem lindas,
Despedem-se a cada instante que nos encantam, com doce sabor de maldade. 

Elio Cunha

Porque eu estava sentado esperando e era sexta-feira à tarde

Um vigor repentino com estrépito
Como se fosse dia de feira
Mas é domingo
E nem há mar para praia
Nem vento para pepeta
O que fazer?
Sentar-se em um banco de praça
Ler um romance
Um jornal
Um poema velho
Ver as moças que passam
O dia que se vai
Espantar as moscas
Enxugar o suor
O que fazer?
Cuspir no chão?
No prato em que se come?
O que fazer?
Um dia de sol sem nuvens
Um dia muito quente
De pouca intenção para nada
Que não fosse deixar de fazer alguma coisa
Coisa sem sentido
Estabanada não
Parada
Que nem água de lagoa morta cheia de mau cheiro
Um dia como um dia de feira sendo domingo para não fazer nada sem vento
nem praia
O que fazer?
- Não há de quê, senhora, estou aqui lendo e sempre atravesso velhinhas cegas, a rua é braba de carro.
- Que bom que a mocinha pensa assim, era, sim, sim, era um grande poeta; morreu de queda de cavalo.
O que fazer?
Se ao menos houvesse... o quê? O que mesmo?
Falta algo 
Falta o que não sei o que é
Mas é domingo de galinha caipira na panela
Família reunida
Povo falando besteiras alto
Gritando gol tomando cachaça cerveja refrigerante
Bastante tambaqui na forma recheado de chicória tomate cebola
E também na grelha
Jatuarana assada pingando de gorda
Farinha d’água
Caldo de pacu
Terra boa de fartura muita
O que fazer?
Domingo com cara de feira
Dia de feira é ruim
Muita canseira
Quem gosta da segunda?
Há até notícia do homem que matou uma
Mas neste domingo não sei o que fazer
O que fazer?
A agitação era grande 
Os operários e camponeses e soldados estavam insatisfeitos
Não foi difícil a aliança
A coisa explodiu e expandiu-se para longe e no tempo
A experiência não deu certo?
Quem disse?
Houve muito sofrimento
Mas tivemos muitas alegrias
Nos comprazemos em ver a desarrumação na cabeça dos que se achavam donos do poder
Modificamos o mundo
Chegamos à Ilha
Estamos na Ilha
Orgulho e raça vermelha
O que fazer?
O que fazer com um domingo que nos leva para onde não sabemos o que é
Vou fechar o livro que não abri
E encerrar o que não foi escrito
Fim
O que fazer?

Elio Cunha

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Ogano

Talvez o vindouro seja melhor
E nem precisarei vestir branco no reveillon

O espumante de maçã estará envelhecendo na adega das recordações


Elio Cunha

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

0 + 0 + 0 + 0 = ? (zero), logo...

Há invernos na estação,
Com palavras
Ditas entre palavras sem encontro,
Perambulando estradas contínuas,
Repetidas.

Do nada nasce algo?
Se não, a resposta sempre houve.
E por que perguntamos?
Por que queremos saber o que sempre aí esteve,
Colocado sob as nuvens,
Numa repetição sem fim?
Porque tudo o que fazemos de novo,
Novo não é:
É tão antigo que nem começo teve,
Que nem fim terá.

Elio Cunha

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Canto de Kwaray

Em minhas danças
E andanças,
Lanço meu canto em meio às vozes da multidão.
Depois, paro para ouvir o encontro desses sons:
Não só quero sentir se fiz música em alguns ouvidos,
Como desejo saber em que tom devo cantar novamente
Para os que não se emocionaram.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Réquiem ao homem preso


18 de novembro de 2011.
Às 5 horas da manhã,
O sol ainda não nasceu.
No campo, os galos cantam,
Como cantam todas as manhãs.
Às 5 horas da manhã,
O orvalho da noite ainda molha as ruas da cidade,
Os cães ladram à toa, a toda hora.
Aqui, acolá e mais acolá, alguém pedala para o trabalho.
Não há bêbados na rua,
Nem bandeiras desfraldadas,
Nem um acontecimento importante na véspera.
O time da massa empatou
(E já perdeu a esperança do título).
Às 5 horas da manhã,
A cidade está acordando para mais uma sexta-feira clichê, como num amanhecer qualquer,
Embora seja um qualquer diferente.
Há um acontecimento novo.
Às 5 horas da manhã, o sono parece sem fim:
O homem que manda e desmanda e faz chover dorme tranquilo, como quem tem vento na consciência.
Não há peso no travesseiro,
Nem aperto no peito pelo dinheiro que falta para o que era, porque foi tirado.
Nem lhe constringe o coração o doente
Que, às 5 horas da manhã, geme na maca:
Não há leito no hospital.
Mas o homem tranquilo
Dorme tranquilo às 5 da manhã.
Sua esposa felicíssima encanta-se ao lado do melhor homem do mundo.
Talvez tenha sido loucamente possuída
Ou desejado que isso acontecera.
Ao lado do melhor homem do mundo, bastam os sonhos.
Dorme tranquilo às 5 da manhã
(Ele sonha com planícies verdes, como o verde das notas que guarda em seu cofre).
Às 5 horas, esse homem, mesmo dormindo, é só orgulho do que fizera.
(Daqui a meia hora, aquele outro homem, o da maca, vai morrer: o seu leito foi parar no cofre do homem que dorme tranquilo ao lado de sua esposa).
Mas é um amanhecer qualquer com um qualquer diferente.
O homem do sono tranquilo vai ser acordado:
Há um mandado de prisão a ser cumprido.
(A esposa vai soluçar no canto do quarto: o bom homem preso. Ele que no dia anterior deu oferta na igreja e pediu a bênção ao pastor – um pedaço do leito do homem sem leito que morreria na maca foi a dádiva, alegrando o reverendo).
Esse homem público preso!
Sacudido em sua glória!
Que felicidade aos cidadãos!
Alvoroço na cidade.
As verdadeiras boas almas regozijam e, mesmo as que não falam, discursam nas ágoras do silêncio:
Que o cárcere lhe seja eterno!

Elio Oliveira Cunha



quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Num dia como os outros


Foi num dia como os outros,
Mas para você será ímpar:
Nunca mais se repetirá.
Cerrou-se a cortina.

Por uns tempos, os amigos continuarão a tomar cerveja,
A comer quitutes,
A contar piadas e a falar de futebol.
Uma palavra ao acaso,
Entre risos ou falatórios,
Fará lembrar de você
O que só lembrança poderá ser,
E uma imagem de seu rosto
Ressurgirá embaçada.

Num dia como os outros,
No rio de tantos,
Vão seus amigos.
Para eles, o dia de cada um não terá par:
Serão como os antigos soldados romanos,
Caídos nos campos de guerra,
Como os velhos piratas bêbados
Que mourejavam nos lupanares de idos séculos,
Como cantigas de lavadeiras entoadas ao vento,
Perdidas para sempre, como se nunca existido tivessem.

E você,
Que desde a partida solitária
Passara a morar em pensamentos outros,
Você, que se tornara cinzentas centelhas eletroquímicas
(Aquele álbum de fotografia fez chorar gentes
que também se foram,
Tal qual você, que algum dia partira),
Você não resistirá à borracha de Titã
- Impiedoso menino que só quer brincar
E não faz memória do que cria.

Elio Oliveira Cunha

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Que menina!

Que coisas desastrosas são os maria-vai-com-as-outras. Há muitas pessoas desse tipo neste mundo! Eu, inclusive, já contara a história de um Juquinha-Piolho, fino representante dessa abundante espécie.
Agora, nesta fábula, o nome da personagem até coincide com o primeiro nome da alcunha popular dessa classe de viventes: chamava-se Maria.
Por causa da mania de não resistir a chamados e conselhos de qualquer um, já se metera em muitas confusões. Algumas tristes, outras hilariantes, outras ridículas, outras trágicas e, de vez em quando, se engamelava em algumas que eram o misto de tudo isso.
Certa feita, a pedido de um amigo, atirou água quente em um casal de cães que copulavam. Que coisa horrível e sem graça interromper coitos abruptamente, sobretudo os dos pobres animais que não devem respeito à moral alguma.
Em outra ocasião, a conselho alheio, cutucou, com uma vara curta e fina, o sob-rabo de uma égua que pastava tranquilamente. Recebeu, como recompensa, um coice nas canelas.
Houve um dia em que andou pelada pelas ruas, porque, pasmem, acreditou nas colegas que lhe juraram piamente terem vestido nela uma roupa somente invisível para quem a usava.
No ano passado, quase reprovou de série. Ficara trinta dias internada no pronto-socorro e outros tantos de molho em casa. Uma colega lhe aconselhara a fazer o jogo da “chicken”. Detalhe: ela estava de bicicleta e o oponente de caminhão. Quase virou pastel de galinha (não se avexem, não tomem galinha pelo que talvez vocês estejam pensando: a nossa menina não era dadivosa – é que, pelo jogo, quem saísse da frente primeiro, dando passagem ao outro, seria a galinha; ela, felizmente, para que a desgraça não fosse total, conseguiu, de último instante, curvar-se à direita e evitar o choque frontal; coitadinha! só quebrou as pernas e a bacia: coisa de somenos importância, nada que um ortopedista João-paulino não pudesse consertar).
Mas nada disso chegou perto do que ela, recentemente e pela última vez, fora capaz de fazer por conselho dos queridos amigos. Foi a Claudinha quem falou:
- Mana Maria, ontem assistimos um filme que um homem tomava um remédio e morria. Mas só por alguns minutos. Depois ele voltava à vida. Sãozinho em folha!
E convenceram a pobrezinha de que elas tinham conseguido a tal poção e Maria deveria tomá-la. Tadinha, nem sabia o que era o Auto da Compadecida.
- Veja, Maria, você toma o remédio e morre por alguns minutos. Vê nosso Senhor Jesus Cristo, fala com ele e pode até pedir algo de especial.
Se Maria falou com Jesus, não se sabe, pois notícia comprovada do outro mundo ainda não se teve. Mas, se conseguiu tal feito, o Nosso Senhor, usando uma expressão tão ao gosto do nosso Machado, deve ter dito:
- Menina, qualquer dia destes, dou-te um piparote. Vá ser jega assim na p.q.p.!


Elio Oliveira Cunha

sábado, 24 de outubro de 2009

o grito

A sua alma esvaiu-se pouco a pouco,
Os nervos enrijeceram-se: pedras e pedras.
Suporta o soco na cara, sem choro.
A lança, brandida há não sei quanto tempo,
Rasga os lençóis de vento.
- Ai daquele peito que atravessar à sua frente!
E por toda a estrada, à beira,
Os caminhantes, a passos lentos.
Não importa o quão larga é a estrada,
Eles sempre trafegam à margem;
Não importa o quão longa é a estrada,
Eles sempre caminham,
Mesmo que o horizonte sejam túmulos de vento.
Agora, a fina navalha no corpo.
Sulcos e sangue.
Em passos lentos,
Encolhe-se em meio à multidão de andarilhos.
Não adianta levantar o escudo:
Os caminhantes baixaram a guarda e andam a esmo.
Entretanto, um dia há de haver em que olhará para as reses do rebanho
E, sentindo o cheiro das tripas que secam nos varais ao longo da via
E as lâminas que lhe roçam o couro,
Sairá da estrada e embrenhar-se-á nas florestas...

E os guardas, avisados, a sirene tocarão e gritarão:

- Fechai as vossas janelas,
Cerrai as vossas portas,
Há um ladrão que ronda a vossa seara
E a qualquer momento poderá surgir no vosso jardim,
Entrar em vossa casa, cortar-vos a garganta
E saquear a vossa despensa.
De nada valerão as vossas armas:
O saqueador já traz o escudo soerguido
E quebrará com o martelo o elmo de vossas armaduras
E decepará com a foice a cabeça de vossos filhos.

Distante,
Cansado da corrida sem-rumo, entra em um jardim,
Recosta-se em uma árvore e...


As cálidas rosas ferem, pungentes,
Deusas donas dos aromas, esplêndidas,
A gema dos recônditos ardentes,
Sombrias fendas das carências límpidas.

E os odores lhe entram nubentes
Dos poros pelas aberturas nítidas
Enlaçando-se aos ritmos plangentes
Que sua alma suspira de dores ríspidas.

Por seu corpo se espalham com a facúndia
Dos cheiros da feminina lascívia,
Arrebatando-o em doces enlevos.

Como um vinho suave traz a delícia
Do êxtase, o olor das rosas inebria
Seu ânimo com seus matizes vivos!


Pelos cortes
Os perfumes esquecem na carne seus cheiros
Doces
Suaves
Sinestésicos

Com as cores, diversas nuanças,
Bailarinas em folhagens e pétalas,
Dorme sonhando com crisântemos e dálias e girassóis e hortênsias e jasmins e margaridas e orquídeas e sempre-vivas

Sonha...

Era um lago amplo de céu azul
Arvores, pássaros, uma casinha de madeira, jardim
Os peixes beliscavam a isca
Podem comer à vontade peixinhos
Não tinha pressa
Pra que pressa?
Daí a pouco a noite, estrelas e luar
Amanhã o sol nascente
O lago, a casa, as árvores, o vento e os peixes
Podem comer peixinhos
Não há pressa
Pra que pressa?
Os meninos riam correndo, correndo
Os velhos liam nas preguiçosas
Cadê as goiabas que guardei aqui?
Não faz mal
Tantas laranjeiras nos quintais
Mulher, a minha botina tá sorrindo aos montes
Não faz mal a gente não precisa mais comprar
Pressa? Pra que pressa?
Era um lago amplo de céu azul
Árvores pássaros uma casinha de madeira jardim.

Sonha...

Numa taverna
Medalhas escudos brasões insígnias
Adornavam paredes
Alegres
Pessoas
Bebiam às pampas
Cantavam dançavam falavam
Histórias antigas

Um
De uma mesa sombria aos fundos
Levantou-se altaneiro
E depois de um longo gole
Recordou-se sobranceiro:

Quando levantei meu grito,
A batalha se travava sangrenta,
As espadas tiniam o seu aço,
Brandiam-se os sabres,
Cravavam-se no peito as lanças.
Havia homens que,
Enquanto seus exércitos guerreavam,
Sentavam-se em banquetes fartos,
Comiam carnes sobrasadas,
Bebiam vinho e cerveja,
Fumavam charutos e cigarros,
Comiam as suas e as outras mulheres
E, em meio aos estratagemas que traçavam,
Arrotavam e sambavam,
Xingavam e compunham poemas,
Eram lidos nas academias
E nos conselhos falavam mais alto.

Meu brado saiu desbragadamente alto
Num tom grave e sem solavancos
Num instante em que as mulheres dos soldados
Cozinhavam e lavavam roupas
E olhavam para o horizonte
Sabendo que do outro lado
Seus maridos se lambuzavam de sangue.

Tomou mais um gole de vinho e sentou-se, para esquecer.

Na parede
Ao lado das insígnias escudos brasões e medalhas
Uma rosa branca

Eram tempos de botas sorridentes e lago amplo de céu azul.
Árvores pássaros uma casinha de madeira jardim.

Elio Oliveira Cunha

domingo, 16 de agosto de 2009

Quem disser outra coisa estará mentindo

De vez em quando, me dá loucuras de pensar soluções para resolver os problemas deste nosso mundão. Ultimamente, tem me intrigado bastante o desmantelo que é a educação pública brasileira. Em todos os cantos e recantos desta Pátria amada. Não preciso exemplificar para se ter uma idéia de como é. Todo mundo sabe como o troço anda. E não venha querer me contradizer, dizendo que a coisa já andou pior e que, “devagarim”, como diz mineiro, estamos conseguindo avançar. O negócio anda mal. O que pretensamente avançamos significa pouco diante do que precisamos fazer. O desafio é garantir escola com educação de qualidade para todos. Como fazer isso?
Em época de campanha eleitoral, candidatos a cargos de prefeito, governador e presidente gostam de dizer que vão melhorar a educação. Se você quiser saber se algum deles está falando a verdade, é só perguntar: “Em sendo eleito, qual será o salário do professor de ensino fundamental e médio durante seu governo?”. Se ele disser qualquer valor abaixo de R$ 8.000,00 estará mentido. Mentindo que pretende melhorar a educação. Se realmente se pretende melhorar a educação neste país, um professor de educação básica não pode ganhar menos do que OITO MIL REAIS. Isso mesmo, OITO MIL REAIS, para uma carga horária de 40 horas, incluindo planejamento de dez horas, é claro. E olha que estou sendo modesto. Isso é só para começar. Alguém deverá estar dizendo: “Esse cara é um idiota, nem professor de universidade ganha isso!”. Se um professor de universidade não ganha esse salário, isso só vem a corroborar minha óbvia afirmação de que a educação realmente anda mal.
Por que o professor deve receber essa remuneração? Vejamos. Primeiro, ele precisa viver dignamente: casa, carro, conforto, comida, bugigangas eletrônicas, lazer, etc.; segundo, tem que sobrar dinheiro, no final do mês, para comprar bons livros, assinar duas ou três revistas, assinar um bom jornal, pagar a internet, assinar uma TV fechada para assistir, entre outras coisas, ao bom futebolzinho do sábado e domingo; terceiro, quando ele estiver na escola ensinando, não ficar preocupado com a dívida no mercadinho da esquina, com a energia elétrica que pode ser cortada a qualquer instante, etc., etc.; quarto, dinheiro é sempre bem-vindo.
E de que forma a melhoria no salário seria garantia de que a educação iria realmente avançar a passos largos? Mire e veja. O Estado, pagando um bom salário ao professor, tornaria cobiçada essa profissão. Quem não iria querer se formar, prestar um concurso público e ingressar na carreira do magistério? Com isso, haveria uma disputa por vagas nas universidades públicas para ingresso nos cursos da área da educação, o que melhoraria sensivelmente a qualidade do alunado que freqüenta esses cursos, melhorando, consequentemente, a qualidade dos cursos e, em seguida, a dos profissionais que chegam ao mercado de trabalho. Haveria, também, uma concorrência maior nos concursos públicos. Somente os feras conseguiriam passar.
Com uma boa remuneração, os professores que já são contratados teriam condições de investir mais em sua formação intelectual e pedagógica. Pagando bem, o Estado poderia exigir que isso ocorresse. Os técnicos responsáveis pelas cobranças, aproximando-se de um professor meio relapso, poderiam dizer, em alto e bom som, e não estariam errados: “O Estado está te pagando bem, meu chapa, portanto, agora você pode fazer pós-graduação, mestrado, doutorado, etc., e, outra coisa: não queremos mais saber de lero-lero em sala de aula”. Conhecendo bem os tais técnicos, acho que, nesse sublime instante, ao proferirem essas palavras, teriam um orgasmo pedagógico. Se do jeito que a coisa anda, eles gostam de cobrar tanto, imagine com o professor ganhando OITO MIL REAIS! Mas, tudo bem, com esse salário, há que haver grandes exigências mesmo.
Além das belas palavras ditas por nossos superiores hierárquicos cobrando aulas bem preparadas e bem dadas, penso que o Estado poderia, pagando OITO MIL REAIS por mês, avaliar, periodicamente, o professor. Essa avaliação seria necessária para perscrutar o nível de conhecimento dos professores. Digo mais: depois de uns dez anos pagando OITO MIL REAIS (com as devidas correções para evitar a corrosão pela inflação), a permanência no serviço público deveria estar condicionada a tirar boas notas nessas avaliações.
Em pouco tempo, as escolas teriam quadros de professores bastante qualificados, o que, com certeza, influiria decisivamente na tão sonhada melhoria da qualidade do ensino público.
Se o aumento de salário seria o suficiente para melhorar a educação? Obviamente que não. Mas isso é assunto para o próximo bate-papo.


Elio Oliveira Cunha

sábado, 11 de abril de 2009

Coisas de fazenda

Remexendo velhos papéis em casa, encontrei uma história que, segundo o autor, é coisa do folclore político brasileiro. Conta que, numa província distante do Brasil, um político, não muito afeito às regras da gramática, conseguiu, suplantando as vontades dos homens cultos daquelas plagas, eleger-se governador. Em princípio, quando se lançou ao pleito, poucos, até os mais otimistas, pelo seu lado, acreditavam ser a vitória possível. No entanto, veio o resultado final, e, para dissabor dos céticos oposicionistas, o dito político chegou, por meio focinho, como se diria numa corrida de cavalos, aos louros da disputa. 
Bom, político eleito, mesmo contrariando, se me permitem um pleonasmo, ao bom senso dos sensatos, tem que ser empossado. Dessa forma, o nosso homem sentou-se na cadeira-mor da província. Cá não me recordo se, na solenidade de posse, ele estava usando seu característico chapéu e nem me lembro das sábias palavras proferidas por ele nesse dia (com certeza, não muito distante em estilo e em conteúdo de seus memoráveis discursos de campanha), mas o certo é que, se não manifestara isto claramente, havia em seu coração e gesto de rastaqüera, a inequívoca intenção de administrar o Estado consoante a uma fazenda.
Sua capacidade de governar tem muito surpreendido aos sapientíssimos conhecedores da ciência política e da administração pública. E se fosse dado a Montesquie, criador da teoria dos três poderes, oportunidade de se levantar do túmulo, em que há tempos jaz na paz eterna e longe das balbúrdias mundanas, e conhecer como a tal divisão dos poderes funciona na província de nosso personagem, sem dúvida, ficaria embasbacado. Não conseguiria entender como um homem – que, segundo dizem algumas pessoas, se jactancia do fato de não ter estudos, coisa que, particularmente, não acredito ser verdade e reputo tais acusações às mentes insidiosas desse país, talvez a algum professor insatisfeito -, pois bem, não conseguiria entender como um homem de parcos conhecimentos escolares seria capaz de subverter de maneira tão prática a sua tão decantada teoria da separação dos três poderes.
O texto, que tive a felicidade de achar entre meus antigos e desimportantes guardados, não se atém, de maneira exaustiva e científica, à análise desse fenômeno. Contenta-se em relatar como ele funciona. Segundo o autor, a província fora concebida como se fosse uma fazenda. A sua administração cabe a um sistema interessante. É que em vez de três poderes, três currais. Isso mesmo, na fazenda, constam três currais. Há um curral que administra, outro que legisla e outro que julga. Nas letras da lei, são independentes, mas, aqui se diga, sem muitas explicações, que os dois últimos são subordinados ao primeiro. Por mais que aperte minhas têmporas, e contorça meu nariz, não consigo compreender o mecanismo que regula o funcionamento de tal arranjo. Única coisa que sei, porque li no texto que encontrara, é que o nosso personagem age como se fosse o dono da fazenda: esmurra, diz bravatas, xinga e tange a boiada para onde lhe aprouver. A bem da verdade, há alguns que tentam resistir, mas, é bom que se diga, sem muito sucesso.
Certa feita, conta o texto, numa reunião em que os representantes máximos dos currais se faziam presentes, o mais ilustre e culto deles, pelo que julgo seja um jurista, disse-lhe, obviamente em conversa particular:
- Excelentíssimo, muito me apraz tê-lo como autoridade máxima dessa província e julgo de suma importância que um homem de poucos estudos, a exemplo de nosso presidente, tenha conseguido galgar tão alto posto. Mas se me fosse permitido dar-lhe um conselho, dir-lhe-ia que Sua Excelência deveria aprender as normas do bom falar porque assim as exigem as cerimônias próprias da função de governar.
- Cê quer dizer que tenho que aprender a falar canem voceis.
- Não digo que Sua Excelência precisa abandonar suas raízes e assumir uma linguagem estranha ao seu meio. O que digo é... veja, por exemplo, o caso de nosso presidente, como eu lhe disse, ele é um homem que veio do povo, não teve oportunidade de freqüentar escola, mas ninguém anda troçando com seu falar. Ele usa uma linguagem, se não digo impecável, mas pelo menos razoável.
- Mas por que a entendida excelência tá puxando essa conversa?
- É que assisti a uma entrevista do nobre governador e não achei muito apropriada as palavras dirigidas aos tais sindicalistas, se bem que eu também os menosprezo.
- E como se diz “fiofó” nessa linguagem?
- O quê?!
- Como se diz “fiofó”, home?
- Eu diria ânus.
- E merda?
- Isso é escatológico!
- Esca o quê?
- Não, o que eu quero dizer é que essa conversa é... Vá lá é “dejetos”.
- E pôr pra fora esse troço pelo tal do ânus?
- Expelir.
- Então você acha que eu diria praqueles sindicalistazinhos que eles são uns expelidores de dejetos. Vejo que de bunda de criança e cabeça de juiz, a gente não sabe mesmo o que vem. Eles são é um cagão! Cagão!

            Elio Oliveira Cunha

terça-feira, 10 de março de 2009

Sem rumo


Noite silenciosa. Rua deserta. Só se ouviam a minha respiração, e os meus pés pisando no asfalto frio. A lua também, como sempre, quieta e solitária. Continuei a andar. Sem pressa. Na verdade, não ia a lugar algum. Só não suportava mais a minha alma vagando pelos cômodos de casa. Precisava caminhar, buscar coisa diferente.
De repente, um grito. Uma voz rouca e áspera. Parei. Novamente gritos. Depois, passos que se aproximavam. Virei. Não havia ninguém. A rua continuava deserta, sem viva pessoa que não eu.
- Meu Deus, que teria sido aquilo?
Quando dei por mim, já estava diante de uma casa de luz vermelha. Antoniele fumava à porta.
- Vem, entra. Você está com uma cara horrível hoje.


Elio Oliveira Cunha

sábado, 8 de novembro de 2008

Por que a poesia nos fascina tanto?

Gostaria de estar escrevendo neste instante com um copo de cerveja à mão. Nunca vi uma combinação tão perfeita. Principalmente quando se trata de poesia. Ela (ou seriam elas?) nos carrega para um mundo em que podemos sonhar todas as possibilidades humanas: somos reis, magos, magnânimos, altivos, líricos, revolucionários. Somos o que quisermos ser. Quem poderia realmente compreender, amar e sentir o poema de Manuel Bandeira, transcrito abaixo, sem nunca ter bebido uma gota sequer de álcool?

Bacanal

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
- Vinhos! ... o vinho que é o meu fraco!...
Evoé Baco!

O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e eu não domo!
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos.
Evoé Vênus!

Essa ligação é tão visceral que chega a constituir-se em figura na qual a beleza se hiperboliza por conta da comparação, como neste trecho de um poema de Mário Quintana - que nos suscita uma imagem sublime, serena e plástica.

Eu fiz um poema belo
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa

A plasticidade é marca desse mestre. Veja como ele a consubstancia neste metapoema:

O Poema

Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como uma pequenina moeda de prata perdida para sempre
na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
condição de poema.

Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

Um poema nos liga a outro, porque, mesmo que não saibamos disso, eles se comunicam e se falam. E se os homens deixassem de haver, perdidas para sempre no éter ficariam as vozes dos poemas, num diálogo oximoramente mudo, a dizer de nossas passageiras existências. Mas, neste momento em que estou vivo, posso ouvir a voz de um poema de Fernando Pessoa que nos fala de Cesário Verde, que nos fala da singular maneira desse poeta estar no mundo e perceber o mundo:

Que pena tenho dele! Ele era um camponês,
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para as árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha

E também, neste mesmo momento em que estou vivo e respiro, posso ouvir o grito de meu próprio poema:

- Fechai as vossas janelas,
Cerrai as vossas portas,
Há um ladrão que ronda a vossa seara
E a qualquer momento poderá surgir do vosso jardim,
Entrar em vossa casa, cortar-vos a garganta
E saquear a vossa despensa.
De nada valerão as vossas armas:
O saqueador já traz o escudo soerguido
E quebrará com o martelo o elmo de vossas armaduras
E decepará com a foice a cabeça de vossos filhos

Talvez seja por isso que a poesia nos fascina tanto: ela nos retira de nossa limitada existência em preto-e-branco e nos faz senhores dos sonhos, da beleza e de todas as vontades, nos faz homens com uma sensibilidade capaz de perceber todas as nuanças da vida.

Elio Oliveira Cunha